A poesia é um estado de luto ou o transe de Vera Lúcia de Oliveira

14 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Livro: A poesia é um estado de transe

Autor: Vera Lúcia de Oliveira

Editora: Portal

Número de páginas: 64

Ano: 2010

por Rudinei Borges

 A poesia é um estado de transe, livro de Vera Lúcia de Oliveira, lançado pela Portal editora, concerne num ritual, quase abrupto, de luto – agonia pela perda. O título despista o leitor, mas já nas primeiras linhas o chamariz da palavra transe, termo tão em voga,  é ofuscado por versos como: “a casa se enche de tudo quanto/Deus carrega consigo no seu útero”. A pretensa espiritualidade é logo banida, porque a questão central da poesia de Vera Lúcia é a morte, o amor, o ódio, o mundo e a vida. Trata-se, sem exageros, de uma bíblia concisa. A bíblia das dores do mundo – para lembrar Schopenhauer. A poeta engana a todos. A leveza e a precisão de suas palavras parecem esconder as mazelas mais cruas de sua denúncia: “(…) uma angústia/dentro rasgava o pulmão”. Aliás, Vera Lúcia é uma poeta cruel e destemida. E seu livro, para início de conversa, é uma lição de maturidade poética capaz de arrebatar até mesmo o leitor mais desatento. Ninguém sai o mesmo depois de deparar-se com confissões como aquela que inicia o poema Surdez: “tive duas mães e não amei nenhuma”. Erra quem entender a palavra confissão como um aglomerado de desafetos apresentado em versos. O caráter confessional da poesia de Lúcia de Oliveira está pautado num alcance existencial-filosófico considerável. E nisto, encontra-se o vai e vem trabalhoso da engrenagem poética. A poeta soube cortar palavras e diz muito com uma economia só vista em Paulo Leminski e Adélia Prado. O menor poema tem três versos e o maior apenas vinte. O título do menor, Silêncio, talvez elucide as pretensões da poeta nascida em Cândido Moura, mas que hoje reside na Itália. As pausas que compõem a poesia de Vera Lúcia lembram o silêncio das meditações budistas, do sono e, em especial, da morte. A poeta de versos curtos é capaz de provocar sugestões inúmeras: “se peso sou/se não peso ninguém/percebe que sou”. Ou “não posso parar/sou como a corda/de um varal que a noite/tange retesa solta/até que retorne/à dimensão original”. O mistério é o cotidiano. A vida é a soma das pequenezas: “o mistério está na aragem/não carrega vozes/o mistério está na cozinha/nas panelas limpas/nas tampas penduradas nas hastes/na goteira incessante da pia/o mistério está na respiração macia/de cada coisa em seu nicho/esperando a hora de ser útil”. O silêncio – mudez e surdez – compreende o mistério anunciado em A poesia é um estado de transe. Trata-se do silêncio do subsolo, onde residem as raízes, as sementes e os corpos mortos. Mas é também o silêncio do útero, local onde os filhos são gerados sem que pedissem às mães – o silêncio da noite, das sombras e, por final, da própria escuridão.

Entrar no útero é crescer lá dentro

A palavra útero tem dimensão peculiar e está associada a palavra dentro, que aparece vezes diversas como se configurasse uma oração, uma denúncia – como se houvesse necessidade urgente de compreensão. “Só dentro me placo” é o que escreve a poeta para referir-se à vontade de penetrar no osso de tudo o que Deus gerou. Entretanto, dentro também é a morte, grande útero que finda a vida: “ela sabia que na hora chegada/do dia que Deus tinha determinado/dentro da grande língua da terra/ela teria que entrar”. Dentro designa as palavras que têm cicatrizes – apego, parto e tempo: “dentro elas são de madeira/dentro elas se impregnam”. Em oposição à palavra fora, dentro é o lugar de encontro, onde podemos ouvir a nós mesmos. Fora é a residência da perda e do barulho. Em O coração das sementes, um dos poemas mais interessantes do livro, a poeta vai à profundeza da vida, através das árvores, sugerindo encontrar o sentido verdadeiro para a existência. Ela afirma: “por dentro da polpa de um fruto maduro/penetrava em tudo o que é coisa”. Porém, a conclusão da poeta não deixa escapar a sua lucidez que em alguns momentos confunde-se com desalento. “(…) dentro da vida/há morte” ou a constatação “(…) o moinho dentro/ralando um milho sem piedade”. Dentro, na poesia de Vera Lúcia, concerne em “gemer a fome cuspir a raiva/de ter sido gerado não do jeito/que ele tinha sonhado mas do jeito/que o tinham feito”. É o “antro de uma caldeira/que arde dentro da boca/as lascas de uma ferida”.

Sua fome é minha fome

Noutros momentos, a poeta afirma haver uma espécie de fome que brama dentro noite e dia. Uma fome inominável que não se sabe dizer o que é. Que fome é esta? O que Deus carrega consigo no útero? Que é esta coisa que falta que as pessoas não sabem quando perderam? Que é o grande abarrotamento no grande silêncio de fora? Trata-se do desejo de raspar a casca da terra por dentro das sementes, de penetrar em tudo o que é coisa e, como Aleijadinho, recriar o mundo. É preciso gerar nas entranhas a razão para o voo, lembra a poeta. No útero, subterrâneo onde reina a morte, reina também a vida. A liberdade é construção humana. O ser humano precisa vagar no arcano até perceber a proporção correta de cada signo que revela o mistério, como propõem os versos de Há uns que são engenheiros.

Rosnar para o mundo

O lamento da fome e a impossibilidade de gerar razões para o voo levam a poeta a compreender o mundo com um grau elevado de pessimismo. No poema O verdugo, Deus é aquele que castiga a poeta desde a sua vinda ao mundo. Aliás, o mundo não dá trégua. Sofre-se desde o princípio. Deus e o mundo parecem configurar a mesma pessoa ou questão, a mesma decadência: “(…) passo as noites ouvindo/um ruído de traças comendo o mundo”. No poema O Aleijadinho, a poeta indaga: “qual mutilação nossa/espelha Deus?”. Já em À nossa imagem, Vera Lúcia de Oliveira admite o seu desencanto: “chove miudinho/o mundo está lavado/em toda sua dimensão/os vidros se embaçam/a hora espera o arco-íris/enquanto encerro a casa/com obstinação/retiro a louça do lugar/reordeno o mundo da casa/à nossa imagem e solidão”. Diante deste quadro, resta acreditar nas palavras consoladoras do poema Grão: “mas saíste do amor de uma noite/em que Deus habitou meu útero”. Parece haver alguma chance para Deus e o mundo no universo sôfrego de A poesia é um estado de transe.

O amor é a maior causa de morte

Em suas teorias sobre o amor, a poeta dispara: “o amor é a maior causa de morte”. E explica a existência de quatro tipos de amor: 1. o dado de graça; 2. o dado de raiva; 3. o dado de ódio; 4. o não dado. Este último, a falta de amor,  é a maior causa de morte da humanidade. No poema Esmola, a poeta que cresceu na cidade de Assis, em São Paulo, define a relação paradoxal entre ódio e amor. E afirma: “só o ódio é um sentimento humano”, porque para ela “o amor não deixa rastro, o amor não/se imprime à sangue na memória”. E outra vez põe Deus/mundo em questão: “o ódio é um fogo que a gente alimenta/com o nosso desejo de ser um pouco como Deus/e não ter que esmolar o amor para sobreviver”. Em outros poemas, o verbo amar aparece conjugado no passado: “amei você com fome de luz” e “amava (…) o rendilhado das frestas na penumbra”. Não há nada que “sobeja do que já foi esquecido”. O amor não interessa mais. Nem Deus. Nem o mundo. O amor é aquilo que gera a fome que rói e entristece a poeta.

Pisar o chão como num luto

Tudo volta à terra, insiste a poeta paulistana. Não há saída. “Sei que o corpo pede terra”.  Com o anúncio da morte e com a própria morte apoderando-se das coisas e das pessoas, mostrando-se maior que Deus e o mundo, resta carregar o luto, cultivá-lo em alguma parte do corpo. É preciso saber falar com a morte, amar com a vida. É preciso encarar “o monótono jeito de carregar um luto”, uma perda, porque – por vezes – as pessoas veem nos dizer que somos nós que estamos mortos, como no poema Fiel. Por final, resta matutar para onde vão as pessoas engolidas pelo escuro das linhas quadriculadas. É possível darmos com a resposta do pai da poeta, no último poema de A poesia é um estado de transe: “viraram pássaros (…) iam aprender no voo/o resto da geometria”. As pessoas morrem porque não sabem voar.

 

Edner Morelli: transgressão e lirismo

13 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Livro: Latência
Autor: Edner Morelli
Editora: Atemporal
Número de páginas: 64
Ano: 2002

 

Latência, primeiro livro do poeta Edner Morelli, publicado em 2002, antecipou a onda de poemas e contos curtos que marcam a produção literária brasileira no fim dos anos 2000. Influenciada pelo advento do microblog twitter, a nova geração de escritores opta pela concisão. A ordem do dia é cortar palavras, como defende o escritor Marcelino Freire que em 2004 idealizou e organizou a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século reunindo diversos autores para escrever histórias inéditas com menos de 50 letras. No entanto, antes de Millôr Fernandes, Xico Sá e Fabrício Carpinejar se tornarem, com versos e frases, presença certa no twitter, Morelli já escrevia poemas curtíssimos como o irreverente Poemeto esquerdo com apenas dois versos: “Não me apresento/ Nem a mim mesmo”. Tem menos de 140 caracteres.

Mas é preciso lembrar que a concisão já era desejo antigo de poetas modernistas como Oswald de Andrade em seu poema 3 de maio: “Aprendi com meu filho de dez anos/ Que poesia é a descoberta/ Das coisas que eu nunca vi”. Como também da poesia concreta e da obra de Paulo Leminski, por exemplo, com sua vasta produção de haicais .

De fato, a concisão é um dos méritos de Latência. Pena que nem todos os poemas curtos tenham o alcance filosófico anunciado por Caio Porfírio Carneiro no prefácio do livro. Algumas construções curtíssimas de Morelli são surpreendentes como o poema Relógios: “Relógios?/ Não os tenho/ São eles que estragam/ O tempo”. Ou no poema Infância: “Sonho/ De menino/ Não cabe/ No compêndio/ Do infinito”. Noutros momentos, porém,  o poeta esbarra em construções que se assemelham a frase de efeito como no poema Conformismo: “Teorias e pensamentos/ Nada podem contra/ A linha obscura do desejo”. Ou no poema Cadência: “O amor é a coincidência/ Mais sincera existente”.

O poeta paulistano demonstra bastante fôlego em poemas como Instante, quando põe as cartas sobre a mesa e confessa, sem medo, ao leitor o que significa para ele a própria poesia. Vejamos:

“A vida sem poesia

Não começa nem termina

Não há essência nem pantomina

Não questiona nem obriga

Não intimida nem contamina”.

O mesmo ocorre no poema seguinte, Surpresa, onde o poeta escancara, com alguma serenidade, as frestas de sua criação poética. A poesia está no cotidiano, ele sussurra. Ou melhor, a poesia é o cotidiano, ele afirma:

“Pobrezinho

E ele que pensa

Que poesia

É só distorção

Complicação

Nada disso

Poesia também

É o cotidano

Bordado de elegância”.

Os poemas maiores são confissões angustiadas. A vida, no poema que dá título ao livro, é cruel. O poeta é aquele que tem as agruras como matéria-prima de sua criação: “Meus poemas estão perfilados/ Amotinados e confinados/ Dentro de minhas incertezas”. Os versos em primeira pessoa desenham o rosto estarrecido do poeta diante das veredas do próprio ofício: “Sou uma vertente do amor/ Que insiste em sonhar cores inexistentes”. Nestes versos do poema Insistência, Edner Morelli veste definitivamente o hábito da transgressão lírica.

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Sobre fragmento e concisão no livro Necrose da palavra de Welton de Sousa

13 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

 
 
 
Livro: Necrose da palavra
Autor: Welton de Sousa
Editora: All Print
Número de páginas: 74
Ano: 2010

 

Em Necrose da palavra, primeiro livro de Welton de Sousa, o poeta assume o desafiante ofício de coletar palavras soltas em outdoors, placas, revistas e jornais velhos. Não há fim no jogo de Welton. Só começo. O labirinto não tem saída.

As palavras secas coletadas por Welton permanecem secas e soltas. Na carpintaria literária do poeta baiano os pregos, as frestas e as ranhuras ficam à vista. Tudo está exposto. Sem ressentimentos.

Enganam-se os que pensam tratar-se de fluxo de consciência ou automação psíquica. A verve poética de Welton é pregar ripas e tábuas. Ele sabe muito bem onde colocá-las quando quer construir a sua arca.

Em As vozes líquidas dos poemas convidam, poema que abre Necrose da palavra, o poeta inicia com o seguinte verso: “O olhar doutrinário insípido divaga”. O que pensar desta construção, senão que ela confere às palavras uma nova função ou uma ressignificação. Não se sabe ao certo se, de fato, os termos doutrinário e insípido têm a função de adjetivo. Por mais que isto, a princípio, pareça evidente. Em verdade, os adjetivos são uma questão significativa a ser discutida nos poemas de Welton, uma vez que eles compõem o que podemos chamar de método de aglutinação de palavras neste poeta. A grande dúvida sobre a maior parte dos poemas deste livro é: esta palavra tem relação com a palavra anterior e com a posterior? Nem sempre.

Neste sentido, a poesia de Welton exige do leitor a responsabilidade de juntar por conta própria as peças do quebra-cabeça. O veredicto final é do leitor neste caso. Talvez seja sobre isto que o poeta esteja se referindo no último verso de As vozes líquidas dos poemas convidam: “E outra realidade menos morta é-nos vedada”. Talvez a descoberta do leitor configure esta realidade vívida profetizada pelo poeta.

Em outros poemas, o exagero de adjetivos surge como afronta ao leitor. E, em certo sentido, diminui o poema, porque a máquina de atirar adjetivos é quase ininterrupta. É o que acontece em Olhos extáticos. Em quase todos os versos há construções com adjetivos, como por exemplo: cinzas adormecidas, penumbra inóspita, lucidez artística, fragmentada composição, palavra divergente, quotidiano multifacetado e desejos ardentes. No poema sem título da página 63 os adjetivos, ao contrário de Olhos extáticos, são alinhados e dosados harmonicamente: “Quisera chorar dedos dilacerados/ Raízes do canto subterrâneo/Da infância aos rios/ Lavei o rosto da terra/ Mas a boca sangrava/ Um silêncio de canções amordaçadas”.

O melhor de Necrose da palavra surge na coleção de palavras que o poeta junta em poemas como Acervo da luta. O fato da voz do poeta se diluir em muitas vozes permite ao poema alcançar a medida exata do experimento que Welton empreende. São anúncios de jornais, nomes de canções, gritos de presos políticos, citações de datas e expressões repetidas que se misturam na vozearia ruidosa que o poema ostenta. Talvez por isso este poema, por exemplo, tenha sido interpretado com enorme consistência pelo ator Dias Filho na intervenção cênica Poetas de Vidro da 127 Fundos Cia. de Teatro em São Paulo.

Porém, há outro poeta em Necrose da palavra: aquele que não aglutina palavras, que é conscientemente conciso e seletivo. Trata-se dos poemas curtos de Welton de Sousa. São estas as criações que mais reverberam no livro do poeta baiano. Em Moças da indústria bélica, o poeta, em poucas palavras, descreve o itinerário sôfrego das mulheres no pós-guerra. O mesmo ocorre no poema Breviário II. A concisão e a secura com que o poeta narra os fatos transpassa o mero sentimentalismo e denuncia a frieza dos acontecimentos. Aí a poesia de Welton assume maior maturidade em sua construção.

A cultura popular, segundo Antonio Augusto Arantes

13 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

 
 
Livro: O que é cultura popular
Autor: Antonio Augusto Arantes
Editora: Brasiliense
Número de páginas: 83
Ano: 1990
 
 
 
O livro O que é cultura popular, de Antonio Augusto Arantes, publicado em 1980 na série Primeiros Passos da Editora Brasiliense, permanece um dos mais significativos ensaios sobre o assunto.
 
O estudo de Arantes está dividido em três capítulos. Inicia com o texto Um aglomerado indigesto de fragmentos, segue com As culturas aqui e agora, múltiplas e em constantes transformação e termina com Na dimensão política do “popular”, a questão da “participação”.
 
Para o autor cultura popular não é um conceito bem definido pelas Ciências humanas e pela Antropologia social. Seus significados são heterogêneos, remetendo a um amplo aspecto de concepção. Pode-se atribuir à cultura popular o conceito de saber, como também a função de resistência a dominação de classes.
 
O termo saber refere-se, em geral, ao conhecimento do universo e a aspectos de tecnologia, como técnicas de trabalho e procedimentos de cura. Os eventos são pensados no passado ou que logo serão superados.
 
Já a resistência à dominação de classes ocorre com os diversos modos de expressão artística, como a literatura oral, a música, o teatro e a poesia. Nesse caso os eventos são pensados no futuro, vislumbrando neles indícios de uma nova ordem social.
 
No dicionário Aurélio a palavra cultura é registrada como saber, estudo, elegância, e esmero. Evoca, portanto, os domínios da filosofia, das ciências e das belas-artes. Nas sociedades estratificadas em classes esses campos da cultura são, na verdade, atividades especializadas que tem como objetivo a produção de um conhecimento e de um gosto. Tal conhecimento parte das universidades e das academias. É difundido entre as camadas sociais como os mais belos e os mais corretos. Ser culto, nesse sentido, é ter bom gosto, razão ou saber, ter conhecimento e estar informado.
 
Na cidade de São Paulo grande parte da população é descendente de estrangeiros e migrantes rurais. Aí vários modos de vida são recriados. A inspiração rural, por exemplo, está presente nos infalíveis tomateiros e pés de chuchu plantados nos quintais de pequenas dimensões. Isso mostra que embora as escolas, as igrejas, os meios de comunicação e os museus ensinem as pessoas a ter um modo de vida refinado, civilizado e eficiente – isto é, culto -, elas não conseguem evitar que muitos objetos e práticas qualificadas como populares pontilhem seu cotidiano. Nesse aspecto o refinado, civilizado e eficiente refere-se ao culto e o mau gosto, ingênuo, pitoresco e ineficaz refere-se ao popular.
 
A ambivalência, em relação ao que é identificado como popular, não decorre apenas do desconhecimento da beleza, eficácia e adequação insuspeitas do que é culturalmente alheio para aqueles que tomam para si e para os seus semelhantes a tarefa de catequizar o resto da sociedade.
 
As atitudes contraditórias em relação à cultura popular resultam em grande medida a alguns paradoxos. Nas sociedades industriais, sobretudo nas capitalistas, o trabalho manual e o trabalho intelectual são pensados e vivenciados como realidades profundamente distintas uma da outra. Há um enorme desnível de prestígio e de poder entre essas profissões decorrentes da concepção generalizada na sociedade de que o trabalho intelectual é superior ao manual. Para a sociedade capitalista o que é popular é necessariamente associado ao fazer desprovido de saber.
 
Grande parte dos autores pensa cultura popular como folclore, ou seja, como um conjunto de objetos, práticas e concepções – sobretudo religiosas e estéticas -, consideradas tradicionais. Outros concebem as manifestações culturais tradicionais como resíduo da cultura culta de outras épocas e, às vezes, de outros lugares, filtrada ao longo do tempo pelas sucessivas camadas de estratificação social. Diz-se: o povo é um clássico que sobrevive. Pensar em cultura popular como sinônimo de tradição é impossibilitar a compreensão das sucessivas modificações por quais necessariamente passaram esses objetos, concepções e práticas do povo. É pensar as modificações como empobrecedoras ou deturpadoras.
 
A cultura popular surge, portanto, como uma outra cultura que, por contraste ao saber culto dominante, apresenta-se como totalidade embora sendo, na verdade, constituída através da justaposição de elementos residuais e fragmentários considerados resistentes a um processo natural de deterioração.
 
Ao procurar reproduzir objetos e práticas supostamente cristalizados no tempo e no espaço, acaba-se por reproduzir versões modificadas, no mais das vezes esquemáticas, estereotipadas e, sobretudo, inverossímeis – aos olhos dos produtores originais -, dos eventos culturais com os quais se pretende constituir o patrimônio de todos. Embora se procure ser fiel à tradição, ao passado, é impossível deixar de agregar novos significados e conotações ao que se tenta reconstruir. Ao se produzir o espetáculo, cortam-se as raízes do que, na verdade, é festa, é expressão de vida e liberdade. Vida que recusa identificar-se com as imagens que o espelho culto permite refletir e que grande maioria dos museus cultua.
 
São equivocadas as concepções de que o povo não tem cultura, que a cultura popular á a tradição da elite. São concepções etnocêntricas e autoritárias. Pensam a cultura como passível de cristalização, permanecendo imutável no tempo a despeito das mudanças que ocorrem na sociedade, ou, quando muito, que ela esteja em eterno desaparecimento.
 
A cultura é um processo dinâmico de transformações positivas que ocorrem, mesmo quando intencionalmente se visa congelar o tradicional para impedir a sua deterioração. É possível preservar os objetos, os gestos, as palavras, os movimentos, as características plásticas exteriores, mas não se consegue evitar a mudança de significado que ocorre no momento em que se altera o contexto em que os eventos culturais são produzidos. É preciso pensar a cultura no plural e no presente.
 
Significação de valores é da essência da cultura. Pó isso, o ponto de partida usual do trabalho do antropólogo é a observação direta de indivíduos se comportando face a outros indivíduos e em relação à natureza. A cultura constitui os diversos núcleos de identidade dos vários agrupamentos humanos, ao mesmo tempo em que os diferencia dos outros.
 
O ser humano realiza no dia-a-dia operações mentais de codificação e decodificação de mensagens que requerem o conhecimento desses significados implícitos nas ações e nos objetos, e de suas regras de manuseio. Um exemplo são as roupas com que as pessoas do sexo masculino cobrem o seu corpo. Elas constituem um grande número de afirmações simbólicas, sociologicamente significativas. No trabalho os gerentes, diretores e chefes usam paletó e gravata. Nas oficinas, linhas de montagem, serviços de limpeza e manutenção usam-se macacões. Os trajes possuem significação simbólica e carregam fragmentos de um código com o qual se constroem afirmações metafóricas a respeito das relações sociais vigentes.
 
Todas as ações humanas – sejam na esfera do trabalho, das relações conjugais, da produção econômica ou artísticas, do sexo, da religião, das formas de dominação e de solidariedade -, são constituídas segundo os códigos e as convenções simbólicas que denominamos cultura.
 
Em lugar de tomar os símbolos abstratamente, como se eles estivessem vagando no vazio, convém interpretá-los como produtos de homens reais que articulam, em considerações particulares, pontos de vistas a respeito de problemas colocados pela estrutura de sua sociedade.
 
Malinowiski contribuiu com a acepção de que os detalhes da cultura precisam ser vistos sempre em seu contexto e como partes inter-relacionadas. Foi demolida a concepção de cultura como colcha de retalhos – própria dos difusionistas e evolucionista. Estabeleceu-se, então, a tese de que a cultura é constituída por sistemas de significados que são parte integrante da ação social organizada. Recuperou-se a noção de que, mesmo em sociedades relativamente homogêneas, os sistemas culturais comportam incoerências. Permite-se, justamente, a articulação do desacordo nos termos de e com os elementos próprios a um mesmo e único sistema simbólico.
 
Há a tentativa, segundo Eunice Durhan, de criar a ilusão da homogeneidade sobre um corpo social que, na realidade, é diferenciado. A sociedade de classes, inerentemente diferenciada, produz mecanismos homogeneizadores que permitem criar uma ilusão de unidade e que é a condição de sua permanência.
 
A resistência e a participação ocorrem quando nos espaços alternativos, fragmentários e dispersos, como um teatro no fundo do quintal, embora conquistados a duras penas e com muito empenho, pequenos grupos de vizinhos, amigos e parentes, companheiros de trabalho, de igreja ou de partido desenvolvem as suas formas de expressão, a partir das suas maneiras de pensar, de agir, de fazer e, sobretudo, de organizar conjuntos de relações sociais capazes de tornar viáveis, política e materialmente, as suas atividades. Nesse sentido, fazer teatro, música, poesia ou qualquer outra modalidade de arte é construir, com cacos e fragmentos, um espelho onde transparece, com suas roupagens identificadoras, particulares e concretas, o que é mais abstrato e geral em um ser humano, ou seja, a sua organização, que é condição e modo de sua participação na produção da sociedade. Esse é o sentido mais profundo da cultura, popular ou outra, defende Arantes.
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